Ao Encontro da Sombra (dica de livro)

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Ao Encontro da Sombra

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Ao Encontro da Sombra: O Potencial Oculto do Lado Escuro da Natureza Humana 

 

ao encontro da sombra

 

Prólogo
CONNIE ZWEIG

Na meia-idade, defrontei-me com meus demônios. Muitas coisas que eu considerava bênçãos tornaram-se maldições. A larga estrada estreitou-se, a luz escureceu. E nas trevas a santa em mim, tão bem cuidada e tratada, encontrou a pecadora.


Meu fascínio pela Luz, meu vivo otimismo em relação aos resultados, minha fé implícita em relação aos outros, meu compromisso com a meditação e com um caminho de iluminação — tudo isso deixou de ser uma graça salvadora e tornou-se uma sutil maldição, um entranhado hábito de pensar e sentir que parecia trazer-me face a face com o seu oposto, com o sofrimento de ideais fracassados, com o tormento da minha ingenuidade, com o lado escuro de Deus.


Naquela época, tive este sonho com a minha sombra:


Estou numa praia com meu namorado de infância. As pessoas estão nadando no mar. Um grande tubarão negro surge. Todos sentem medo. Uma criança desaparece. As pessoas entram em pânico. Meu namorado quer seguir o tubarão, uma criatura mítica. Ele não compreende o perigo humano.

De algum modo, faço contato com o tubarão — e descubro que é de plástico. Enfio o dedo e o Juro — ele murcha. Meu namorado se enfurece, como se eu tivesse matado Deus. Ele dá mais valor ao peixe que à vida humana. Caminhando pela praia, ele me deixa.


Vagueio, entro no bosque, onde um cobertor azul está à espera. Analisando esse sonho, percebi que eu nunca havia levado a sério a sombra. 

Eu acreditava, com certa arrogância espiritual, que uma vida interior profunda e comprometida me protegeria contra o sofrimento humano, que eu poderia de algum modo esvaziar o poder da sombra com minhas práticas e crenças metafísicas. 

Eu assumia, na verdade, que podia governar a sombra — assim como governava meus sentimentos ou a minha dieta — através da disciplina do autocontrole. Mas o lado escuro aparece sob muitos disfarces. 

Meu confronto com ele, na meia-idade, foi chocante e devastador, uma terrível desilusão. Antigas e íntimas amizades pareciam se debilitar e romper, privadas da vitalidade e da elasticidade. Meus pontos fortes começaram a se fazer sentir como fraquezas, obstruindo o crescimento em vez de promovê-lo. 

Ao mesmo tempo, insuspeitadas aptidões adormecidas despertaram e vieram à superfície, destruindo a autoimagem com a qual eu havia me acostumado.

Meu ânimo vigoroso e meu temperamento equilibrado deram lugar a uma profunda queda no vale do desespero. Aos quarenta anos, caí em depressão e vivi naquilo que Hermann Hesse chamou de “inferno de lama”. 

E a depressão alternava-se com uma fúria desconhecida que se desencadeava dentro de mim, deixando-me vazia e envergonhada, como se tivesse sido temporariamente possuída por algum arcaico deus da ira, Minha busca por significado, que antes me havia levado a um questionamento intensivo, à psicoterapia e a prática da meditação, ressurgiu mais forte do que nunca. 

Minha autossuficiência emocional e minha capacidade cuidadosamente cultivada de viver sem depender dos homens deram lugar a uma dolorosa vulnerabilidade. Súbito, eu era uma daquelas mulheres obcecadas com os relacionamentos íntimos.

Minha vida parecia destroçada. Tudo aquilo que eu havia “conhecido” como uma realidade bravia, desmanchava-se agora como um tigre de papel ao vento. 

Eu me sentia como se estivesse me transformando naquilo que eu não era, Tudo o que eu trabalhara para desenvolver e lutara para criar se desfazia. O fio da minha vida era puxado; a história se desenredava. 

E aqueles que eu desprezara e desdenhara nasciam em mim — como uma outra vida — mas, ainda assim, a minha vida, a sua imagem no espelho, o seu gêmeo invisível.

E então compreendi por que algumas pessoas enlouquecem, por que algumas pessoas vivem tórridos casos amorosos apesar de um forte laço matrimonial, por que algumas pessoas em boa situação financeira começam a roubar ou a entesourar dinheiro ou a esbanjá-lo.

entendi por que Goethe disse que jamais ouvira falar de um crime que ele próprio não fosse capaz de cometer. Eu era capaz de tudo. Lembrei de uma história que lera em algum lugar, na qual um juiz olha dentro dos olhos do assassino e reconhece o impulso homicida na sua própria alma. 

No instante seguinte, ele volta a si mesmo, volta a ser um juiz e condena o assassino à morte. Meu eu escuro e homicida também tinha se revelado, mesmo que por um breve instante.

Mas em vez de condená-lo à morte, banindo-o novamente aos domínios invisíveis, tentei vagarosamente redirecionar minha jornada para poder enfrentá-lo face a face. 

Depois de um período de grande desespero, estou começando a perceber um sentido mais abrangente do meu eu, uma expansão da minha natureza e uma conexão mais profunda com a humanidade. Minha mãe comentou, há uns vinte anos, no auge da minha arrogância espiritual, que eu conseguia amara humanidade mas não conseguia amar o ser humano enquanto indivíduo. 

Com a gradual aceitação dos impulsos mais escuros dentro de mim, sinto que uma compaixão mais genuína cresce em minha alma. Ser apenas uma pessoa comum, cheia de anseios e contradições — isso já foi um anátema para mim. Hoje, é uma experiência extraordinária.

Busquei uma maneira simbólica de deixar nascer a minha sombra, para que a minha vida exterior não se desfizesse e para que eu não precisasse pôr de lado esse modo de vida criativo que tanto amo. 

Durante a preparação deste livro, viajei para Bali, onde a batalha entre o bem e o mal é o tema de todos os teatros de lanterna mágica e representações de dança. 

Existe uma cerimônia de iniciação que o balinês faz aos dezessete anos, na qual seus dentes são limados e nivelados para que os demônios da raiva, da inveja, do orgulho e da cobiça sejam exorcizados.

Depois dessa cerimônia, o iniciado sente-se purificado, batizado. Ah, a nossa cultura não nos oferece essas cerimônias de iniciação! Descobri que, para mim, dar forma a este livro era uma maneira de mapear a descida e levar uma luz às trevas.

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